O filosofo Louis Althusser estrangula a Mulher

16 Novembro 1980

Era domingo, uma manhã cinzenta de domingo quando o filósofo Louis Althusser, de 62 anos, anuncia aos gritos o que acontecera no interior do seu apartamento na École Normale Supérieure, em Paris: “Estrangulei Hélène!”

No dia seguinte, já com o filósofo internado num hospital psiquiátrico, a autópsia confirma: apesar de não existirem quaisquer vestígios na pele do pescoço, nem quaisquer sinais de resistência, Hélène Rytmann, de 70 anos, companheira de Althusser há mais de 30, tinha sido estrangulada. Por ele, que um ano depois é dado como inimputável. Althusser, um dos principais filósofos comunistas, tinha um passado clínico de depressões e crises de melancolia, conhecera já vários internamentos. Continuará a entrar e sair de hospitais psiquiátricos até ao fim da sua vida, em 1990.


Entre internamentos, revolta-se contra a privação da palavra que o seu acto acarretara, contra a ausência de testemunho. O resultado é uma autobiografia, L”Avenir Dure Longtemps, que começa assim: “É provável que se considere chocante eu não me resignar ao silêncio após o acto que cometi, e também o não-lugar que o sancionou e do qual eu beneficiei. Mas se eu não tivesse tido este benefício teria de ter comparecido. E se eu tivesse comparecido teria de ter respondido. Este livro é essa resposta (…).”

1973, Paris, France — French philosopher Louis Althusser at the blackboard with a diagram of his “transcendental snail” theory, at the Ecole Normale Supérieure in Paris. — Image by © Patrick Guis/Kipa/Corbis


Saído de “uma noite impenetrável”, o que terá levado o filósofo a matar? O que terá levado Hélène a não resistir? “Estrangulei minha mulher, que era tudo para mim, durante uma crise intensa e imprevisível de confusão mental, ela que me amava a ponto de querer apenas morrer, na falta de poder viver, e talvez eu tenha, na minha confusão, e na minha inconsciência, “prestado esse serviço”, do qual ela não se defendeu mas do qual morreu.”