Tentativa de golpe de estado em Angola, morrem 30.000 pessoas

27 Maio 1977

Trinta mil mortos é o resultado da sublevação de 27 de Maio de 1977 em Angola. O balanço, feito recentemente por dois historiadores portugueses, consta do livro ‘Purga em Angola. O 27 de Maio de 1977’, da autoria de Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus, já concluído e a ser editado em breve.

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Liderada por Nito Alves e José Van Dunem, eles próprios membros do Comité Central do MPLA, a insurreição foi travada pelas tropas cubanas, que se mantiveram fiéis ao Presidente Agostinho Neto. Seguiu-se uma onda de repressão, permitida e encorajada pelo próprio Presidente da República, aos microfones da televisão. “Não haverá contemplações… Certamente não vamos perder tempo com julgamentos. Seremos o mais breve possível”, avisou Agostinho Neto, logo no dia seguinte, dando o mote a todo o tipo de perseguições e execuções. O fuzilamento sumário passou a ser a norma contra os suspeitos.

Os dois historiadores tentam um balanço possível da repressão que se abateu sobre os revoltosos. Cálculos anteriores avançavam números entre os 20 mil e os 80 mil mortos. Dalila e Álvaro Mateus, por sua vez, apontam para “30 mil mortos. Dez vezes mais mortos do que no Chile de Pinochet. Sem qualquer julgamento. E em muitos casos sem qualquer relação com os acontecimentos”.

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O livro, fruto de uma longa pesquisa em Portugal e Angola, promete dar brado. Uma listagem sumária de mortos entre a nomenclatura do Estado angolano inclui vários membros do Comité Central do MPLA, alguns ministros, a maioria dos comissários políticos das Forças Armadas e numerosos governadores de província. “No Batalhão Feminino não terá sobrado qualquer elemento, tendo sido mortas a comandante Elvira da Silva (‘Virinha’) e a comissária política Fernanda Delfim (‘Nandy’), que estava grávida”.
Os autores sublinham que “a repressão foi multirracial. Com efeito, foram fuzilados negros, brancos e mestiços”. Os fuzilamentos ocorreram um pouco por todo o país. Em Malanje, foram “mais de mil pessoas”. Na capital, “os fuzilamentos prosseguiram durante meses e meses”. No Lubango, “dirigentes e quadros da juventude foram atados de pés e mãos e atirados para Tundavala”, um profundo precipício.
Os dois historiadores procuraram ler tudo quando se publicou nestes 30 anos e mergulharam no arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros português. Mas as grandes novidades decorreram das numerosas entrevistas, feitas em Portugal, e que incluíram dezenas de ex-presos políticos, destacados dirigentes do MPLA, antigos responsáveis militares e da DISA (a polícia secreta do regime). Foram entrevistados também vários portugueses que viviam na altura em Angola, incluindo quadros afectos ao PCP, militares e diplomatas.

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Dalila Mateus é doutorada em História pelo ISCTE, com a tese ‘A PIDE-DGS na Guerra Colonial (1961-1974)’, publicada pela Terramar. Álvaro Mateus, por seu turno, é professor aposentado, tendo sido director da escola de quadros do PCP.
O arquivo do Ministério português dos Negócios Estrangeiros regista que pelo menos dois portugueses “foram mandados executar sumariamente na cidade do Luso, sem qualquer motivo”. Entre muitas outras revelações prometidas pelos autores, o livro garante que estas mortes nunca foram esclarecidas.