Nascia o Presidente da Republica português Marcelo Rebelo de Sousa

12 de Dezembro 1948

Passou a infância nos corredores do poder. Foi um menino precoce, um aluno brilhante. Mas nunca perdeu o sentido de humor e a tentação de pregar partidas que os amigos classificam como ‘marcelices’. Contraditório, excêntrico, esteve no centro da vida política portuguesa quase desde que nasceu. Está agora perante o maior desafio da sua vida: o de cumprir o destino para que a mãe achava que estava destinado, chegando ao mais alto cargo da Nação.

No dia em que começou a sentir as dores do parto, Maria das Neves tinha acabado de sair do trabalho no Instituto Aurélio da Costa Ferreira, onde tratava dos problemas das crianças dos bairros de lata de Lisboa. Pegou no telefone e ligou ao marido para o avisar de que a criança ia nascer. Mas, sem carro, Baltazar não sabia como acudir à mulher.

507122

Foi Maria das Neves quem tomou a iniciativa de pedir à telefonista para ligar para a Comissão Executiva da União Nacional para pedir ajuda a Marcello Caetano, o ex-ministro das Colónias com quem Baltazar trabalhava desde 1940.

Marcello meteu-se com a mulher Teresa no seu Vauxall e foi buscar a grávida. Mas o percurso do Areeiro a São Sebastião da Pedreira foi em si mesmo uma aventura. Marcello Caetano tinha tirado a carta depois dos 40 e era um péssimo condutor, que demorava uma eternidade para estacionar.

Com todos os percalços do dia, o primeiro filho de Baltazar e Maria das Neves haveria de nascer já depois da meia-noite do dia 12 de dezembro de 1948.

O pai assistiu ao parto, coisa rara à época, mas talvez explicada pelo facto de ser um estudante de Medicina, e decidiu dar-lhe o nome do amigo que já tinha sido seu padrinho de casamento. Ficou Marcelo Nuno, para se distinguir de Marcello, que haveria para sempre de o tratar pelos dois nomes.

Celinho, como seria chamado até aos 10 anos, foi um bebé bem-disposto, que não dormia à noite e palrava até ser dia, para desespero dos pais que, quando compraram um carro, chegavam a andar por Lisboa de madrugada num Carocha, a tentar adormecer a criança.

507188

Aos seis anos, teve o seu primeiro encontro cara a cara com o poder. O pai tinha-o levado para o camarote do centro hípico da Quinta da Gandarinha, em Cascais, onde o General Craveiro Lopes cumprimentava as entidades oficiais.

Quando viu a criança, Craveiro Lopes não escondeu o desagrado. Depois de perguntar ao pai quem era e de Baltazar se ter apresentado como “o novo subsecretário de Estado da Educação”, o general atirou com dureza: “Senhor subsecretário de Estado, recorde uma coisa, filho de subsecretário de Estado não é subsecretário de Estado. Ora, o menino vai para outro sítio”.

Contrariado, mas sem fazer birra, Marcelo foi levado para outro camarote, onde assistiu à prova entre estranhos. Mas foi só no regresso a casa, no Cadillac preto que o pai usava para as deslocações oficiais, que percebeu quem era o homem vestido à civil que costumava ver de farda nas fotografias dos jornais. “Ah, então, este era o presidente da República”, disse ao pai.

507349

Marcelo é educado com rigor e exigência. Baltazar exige aos filhos nada menos que serem os melhores. Maria das Neves acompanha de perto os estudos dos três pelo menos até ao terceiro ano do Liceu. Para estimular os bons resultados, os pais oferecem presentes como recompensa de notas altas. Tudo o que seja abaixo de Bom é considerado insuficiente pelos Rebelo de Sousa.

É como estudante de Liceu que ganha a mania de atribuir notas a quem o rodeia, como acabaria por fazer muitos anos mais tarde num programa de comentário político na TSF. E é também aí que ganha fama de ser irrequieto, extravagante e dado a partidas que muitas vezes exploram as fragilidades dos outros.

Aos 17 anos, ganha o seu primeiro dinheiro a participar em novelas radiofónicas, na Emissora Nacional, ao lado da futura actriz e então colega de turma Ana Zannati, com quem teve um namorico breve de adolescência.

PT-PSD-PSD-AUD-015-1989-00001

Gosta de festas, bebe as suas primeiras imperiais e tenta impressionar as miúdas com a moto Famel Pachancho que recebeu como prémio das boas notas. Mas isso não o faz descurar o trabalho: passa os Verões a antecipar a matéria que dará no ano seguinte e conclui até Dezembro todo o trabalho para o ano lectivo.

O esforço dá frutos. Em 1964, ganha o prémio D. Dinis por ser o melhor aluno do Pedro Nunes. Na cerimónia onde recebeu um prémio de uns impressionantes mil escudos, encontra-se com Henrique Granadeiro, o melhor do Instituto de Estudos Superiores de Évora, e Leonor Beleza, que ganhou por ser a melhor do Liceu Maria Amália, e que haveria de se tornar numa das suas melhores e mais próximas amigas.

Beleza, juntamente com Braga de Macedo, rivalizava na Faculdade de Direito da Clássica de Lisboa com os 19 de Marcelo. Faziam todos parte de uma turma onde estavam também o padre Vítor Melícias, o músico Rao Kyao, o realizador Luís Filipe Rocha e os jornalistas Carlos Fino e Cáceres Monteiro.

mw-860

Na Universidade, Marcelo voltou a cruzar-se com Marcello Caetano, mas o professor catedrático tratou sempre de manter distância em relação ao filho do amigo. A frieza chegava a ser ostensiva. E só foi quebrada quando no final de uma oral de Direito Administrativo, Marcello cumprimentou Marcelo Nuno e lhe disse que gostava que ele se dedicasse à universidade e àquela matéria.

Em 1972 Balsemão chama-o para uma entrevista para o jornal que está a criar. O advogado André Gonçalves Pereira, em cujo escritório Balsemão ocupa uma sala tinha-lhe falado no jovem jurista de 23 anos, com quem já se tinha cruzado na Assembleia Nacional no tempo da ala liberal.

Rebelo de Sousa dizia que se não fosse admitido se enforcava. Quando entrou na sala, o futuro diretor do Expresso ainda apanhou Marcelo com a corda ao pescoço e a língua de fora. Achou-o louco, mas convidou-o para administrador-delegado. Só que a vocação de Marcelo não era a gestão e rapidamente passou para a redação.

507409

Os anos do Expresso são acelerados. Marcelo dorme cada vez menos e deixa Ana Cristina, que entretanto engravida, cada vez mais sozinha. Irreverente, viola frequentemente as regras da censura e quase arruína o jornal. O semanário passa a ser sujeito a prova de página, o que implica uma censura prévia que atrasa a impressão e a distribuição. Balsemão, que só se apercebe do que se estava a passar quando regressa de uma viagem a Espanha, apanha um susto. Mas Marcello Caetano é quem fica furioso com o ‘afilhado’.

Marcelo é frenético e diz-se que muitas vezes não confirmava sequer a informação antes de a escrever. Vicente Jorge Silva, citado por Vitor Matos, diz que Rebelo de Sousa “era capaz de construir uma notícia a partir de um sururu qualquer”, mas que “havia sempre alguma verdade nessas notícias porque ele arranjava as coisas de maneira que a informação fosse sustentada”.

Em 1978, era Balsemão primeiro-ministro, Marcelo é desafiado pela amiga Margarida Salema, irmã de Helena Roseta, a provar a independência do jornal atacando o também proprietário do semanário. O desafio foi irresistível. No meio de um texto da Gente (a secção humorística criada por Marcelo) apareceu publicada uma frase desconexa: “O Balsemão é lélé da cuca”.

507405

Aos 40 anos, Marcelo procurava ser saudável. Passou a dar mergulhos diários no Guincho – que mantém de forma quase religiosa até hoje –, começou a fazer bodyboard e a praticar aikido. Estava no auge da sua forma física quando o vieram desafiar para se candidatar à Câmara de Lisboa.

Tal como na campanha para as presidenciais, Marcelo está a pagar as despesas do seu bolso, na campanha de Lisboa gastou quatro mil contos para oferecer rosas às lisboetas no dia 8 de dezembro.

O esforço acabou, porém, por não compensar. Marcelo perdeu as eleições para Jorge Sampaio, que é hoje seu amigo, e por quem alguns dos mais próximos dizem ter até alguma “reverência”.

Em 1993, já na recta final do Cavaquismo, Marcelo assume os microfones da rádio para ao meio-dia de domingo dar notas aos políticos. Era o programa ‘Exame’ que não poupava Cavaco e os seus ministros e se tornava numa dor de cabeça para quem estava na política e se via assim avaliado.

Tinha tido convites da RTP e da SIC, mas o facto de Rita Amaral ser cunhada de Miguel Paes do Amaral acabou por ter impacto na decisão de ir para a estação de Queluz de Baixo.

507117

Com o tempo, ganha à vontade em frente às câmaras e audiências. O público adora-o. Fala de maneira simples, estabelece um contacto próximo com os pivôs que com ele dividem o estúdio, e não resiste até a algumas graças.

Passa a ser um fenómeno de popularidade. E adora. Os amigos dizem que depois de uns dias no estrangeiro sem ser reconhecido, Marcelo começa a ter saudades do contacto com o público. Gosta de ser “o professor” e de receber a atenção das pessoas.

O dono da TVI, Paes do Amaral, pede a Marcelo para ser menos crítico. Marcelo acaba por dizer que quer sair e emite um comunicado a anunciá-lo.

800

A saída ganha dimensões políticas graves e afecta a imagem já desgastada de Santana. Marcelo acaba por ser convidado para ir comentar para a RTP, já depois de Sampaio demitir Santana. Voltará à TVI em 2010 de onde só saiu em 2015, imediatamente antes de anunciar a candidatura à Presidência.

123PRESIDENT