Citroen 2 Cv

3 de Maio 1948

Em 1948 a Citroën apresentou ao mundo o chamado “Guarda-chuva sobre rodas” no Salão Automóvel de Paris. Intitulado de “Deux Chevaux”, ou seja, dois cavalos, o veículo teve um grande impacto desde o primeiro dia. As reacções foram controversas: uns ficaram entusiasmados e estupefactos, outros consideraram-no esquisito e hilariante. Ninguém ficou indiferente.

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Tudo começou em 1936 e para que entenda esta história terá de se imaginar na França rural dessa época. Pierre Boulanger , diretor da Citroën, encontrava-se na região de Clermont-Ferrand e nesta área particularmente agrícola, o dia-a-dia dos agricultores era baseado na compra e venda de produtos nos mercados locais, cujo transporte era feito através do auxílio de uma carroça e um cavalo. De volta a Paris e, com as necessidades dos agricultores em mente, Pierre Boulanger começou a orquestrar uma máquina com o intuito de substituir os meios de locomoção utilizados pela população rural. As especificações eram simples e atendiam às necessidades do público: um automóvel pequeno, económico com a capacidade de transportar 50 quilos de carga e uma cesta de ovos numa estrada campestre, sem partir nenhum. Pode parecer absurdo testar um carro através da sua capacidade de transportar ovos sem os partir mas se tiver em conta o público-alvo do Citroën 2 CV verá que faz todo o sentido.

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Apesar de transportar com facilidade os ovos em vias campestres, o caminho do Citroën 2 CV até à sua comercialização seria repleto de percalços. O projecto de criação do protótipo da viatura, intitulado de TPV (Tout Petit Voiture), teve a colaboração de André Lafébre e o escultor italiano Flaminio Bertoni  e teria como prazo de lançamento Outubro de 1939. No entanto, a ameaça de uma 2ª Guerra Mundial fez com que o lançamento fosse adiado, a maioria dos protótipos destruídos e alguns desmontados e escondidos em peças. A continuação do projeto foi feita em segredo num local chamado La Ferté Vidame e foi um processo longo e difícil que só daria frutos no pós-guerra aquando da retoma das linhas de produção.

A chegada ao topo não foi imediata, mas Pierre Boulanger adotou uma brilhante estratégia que impulsionou o sucesso do veículo: uma seleção dos clientes a quem iria ser distribuído o novo modelo da Citroën. Agricultores, médicos do interior e artistas estavam no topo da lista de distribuição e o facto dos artistas desfilarem o Citroën 2 CV nas suas turnês aumentou significativamente a popularidade do modelo. Utilizar este tipo de estratégia pode parecer algo banal, mas lembre-se que estamos no limiar dos anos 50 e este tipo de promoção é utilizado, ainda, na atualidade.

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O “Guarda-chuva sobre rodas” evoluiu e sofreu algumas alterações mas o seu caráter simples e prático permaneceu. O interior era composto por quatro bancos que poderiam ser retirados para transportar mais carga, janelas com pequenos compartimentos para ventilação e sinalização manual e uma mala traseira generosa capaz de transportar os apetrechos da família inteira. Caso possuísse muita bagagem poderia coloca-la no espaço debaixo dos bancos ou, então, poderia sempre retirar um dos bancos do Citroën 2 CV. Simples e prático! Para além disso, a tecnologia também evoluiu e as novas características incluíam uma refrigeração a ar para facilitar a manutenção e reparação do motor e uma suspensão única que proporcionava conforto aos seus passageiros em qualquer tipo de solo.

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Entretanto os tempos evoluíram e o Citroën 2CV soube (e muito bem) acompanhar a evolução. O motor foi aperfeiçoado tornando-se cada vez mais potente e a nível estético surgiram novas cores, novos designs e novas linhas. De 1949 até 1990 foram concebidas imensas alterações, novas séries, novos modelos e novos derivados do “Deux Chevaux”. O mercado alargou-se e passou dos agricultores franceses para o resto do mundo, chegando a atingir um total de 5 milhões de unidades produzidas em diversos países, incluindo Portugal.

O pequeno automóvel da família Citroën transformou-se, assim, num gigante da história da locomoção e, mais importante ainda, na história daqueles que por ele se apaixonaram. O seu caráter simples, económico e despretensioso atraiu um público descontraído, prático e jovem. Foi e será um eterno símbolo de liberdade e otimismo.

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