Descoberto o vírus da AIDS nos EUA

23 de Abril 1984

O vírus da Aids foi identificado em dois anos e meio. Jamais uma doença infecciosa teve a sua causa esclarecida em período tão curto. A autoria da descoberta, no entanto, foi cercada de controvérsias entre dois grupos: o de Luc Montagnier, do Instituto Pasteur, na França, e o de Robert Gallo, do National Cancer Institute (NCI), nos EUA.

slide_27

Ao surgirem os primeiros casos de Aids em São Francisco e Nova York, Gallo suspeitou que um retrovírus fosse o responsável pela infecção. Segundo Montagnier, “essa idéia cruzou o Atlântico” e foi encontrá-lo em Paris no final de 1982 pesquisando retroviroses em culturas de glóbulos brancos por meio de uma técnica desenvolvida anos antes por Gallo, no NCI.

Em janeiro de 1983, Montagnier cultivou células obtidas por biópsia de um gânglio de um jovem homossexual francês que apresentava ínguas pelo corpo. No rótulo da amostra foram colocadas as iniciais do paciente: BRU. Poucos meses depois, recebeu amostras de sangue de outro paciente homossexual (iniciais LAI) portador de um tipo de cancro associado à Aids.

slide_5

Tanto no gânglio de BRU como no sangue de LAI foi possível isolar um retrovírus. No microscópio eletrônico, o grupo francês conseguiu ver o vírus isolado e reconhecer nele particularidades que o diferenciavam dos demais retrovírus conhecidos. Em maio de 1983, Montagnier e o seu grupo publicaram o que hoje é considerado o primeiro relato sobre o isolamento do HIV.

A tarefa de manter os vírus de BRU e LAI em culturas duradouras, entretanto, mostrou-se problemática: enquanto LAI fornecia culturas de crescimento relativamente fácil, cultivar o vírus de BRU parecia impossível. Em outubro de 1983, finalmente, foram obtidas algumas culturas de BRU e enviadas para estudos em seis laboratórios diferentes. Um deles foi o laboratório de Gallo. Com o refinamento das técnicas, Mika Popovic, assistente de Gallo, foi capaz de cultivar outros isolados virais obtidos de pacientes americanos. Entre eles, os que foram identificados pelas siglas RF, IIIB e MN passaram a ser usados por vários pesquisadores e conduziram às demonstrações de que o HIV era realmente o agente da Aids.

o-que-hiv-como-se-contrai-o-vrus-o-que-aids-3-638

Por crescer com mais facilidade em cultura de linfócitos, a amostra IIIB foi seleccionada por Gallo e o seu grupo para o desenvolvimento do teste que permitiria identificar os portadores de HIV. No final de 1984, esse teste foi padronizado e, no ano seguinte, colocado à disposição do mercado. Foi um enorme avanço no combate à epidemia.

Gallo voou para Paris levando a amostra IIIB para que o grupo francês o comparasse com os isolados BRU e LAI. Combinaram de organizar uma reunião com a
imprensa caso ficasse claro que os isolados IIIB, BRU e LAI continham o agente da Aids.

Criou-se um litígio internacional em torno dos direitos de patente, que culminou com um acordo firmado entre os presidentes Ronald Reagan e Jacques Chirac, que estabelecia que o Instituto Pasteur e o NCI
dividiriam em partes iguais o dinheiro obtido. Hoje, todos admitem que o vírus da Aids foi descoberto por Montagnier, Gallo e Jay Levy, que, concomitantemente, isolou o HIV na Universidade da Califórnia -mas, sabiamente, sem se deixar envolver nessa disputa de interesses tão alheia à ciência.

robertgallo