“ A lista de Schindler “ – Filme

4 de Março 1994

Filmado em preto e branco para, segundo Spielberg, deixar o filme menos insuportável devido à violência gráfica de algumas cenas, ”A Lista de Schindler” é construído sobre um óptimo roteiro de Steven Zaillian que mostra com tintas extremamente realistas a perseguição aos judeus na Polónia e a sua recolocação no Gueto de Cracóvia, em 1941, onde famílias inteiras eram amontoadas em pequenos quartos, até a transferência de todos para o infame campo de concentração comandado pelo sociopata Amon Goeth (Ralph Fiennes, na sua estreia no cinema).

maxresdefault

É impossível não se emocionar com o poder das imagens dirigidas com surpreendente comedimento por Spielberg e captadas magistralmente pela câmara de Janusz Kaminski. As cenas de mulheres, homens e crianças sendo friamente assassinados com tiros na cabeça são de uma crueza insuportável, mas nunca apelativas ou redundantes.

Mas o que difere ”A Lista de Schindler” de tantos outros filmes sobre o Holocausto Nazi é o carácter profundamente humano e realista que os realizadores conseguiram imprimir à obra, até mesmo ao retratar o monstruoso líder do campo de concentração, Goeth.

Apesar de ser o ”herói” do filme, Schindler é mostrado como um empresário ganancioso e sem escrúpulos que enriqueceu  aproveitando se da guerra e do facto que podia usar judeus na sua fábrica pagando menos. A princípio ele mantém-se afastado dos horrores que acontecem à sua volta, mas vai gradualmente sensibilizando-se até o ponto de sentir-se obrigado a agir em favor dos oprimidos.

Para tentar ilustrar o ponto da transformação do protagonista, Spielberg construiu duas sequências chave usando um recurso até certo ponto simples, porém extremamente eficaz: a menina do vestido vermelho que ganha cores por meio de troca na pós-produção, vista correndo perdida no meio dos nazis  e, depois, já morta sendo levada para a pilha de cadáveres queimados. É nesta cena que ”A Lista de Schindler” atinge o seu ápice como obra cinematográfica, numa perfeita fusão de som, imagem, música (uma das obras-primas de John Williams) e interpretação do elenco capaz de arrepiar todos os pelos do nosso corpo.

269935

A partir daí o filme torna se uma corrida contra o tempo, na qual Schindler tenta salvar o máximo dos seus empregados que pode, usando para isso toda a sua fortuna. É impressionante o poder que o filme tem sobre quem o assiste, mesmo numa revisão. O impacto do registo quase documental daquela monstruosidade praticada em nome de uma suposta ”raça superior” e de uma ideologia grotesca (que lamentavelmente ainda encontra seguidores até hoje) vai continuar chocando sempre, independente de credo religioso ou ideologia política.

026-a-lista-de-schindler