Nascia o Ex Futebolista Eric Cantona

24 de Maio 1966

Entre 1992 e 1997 ele foi a própria encarnação do diabo, Vermelho. Foi a mascote viva da ressurreição do Manchester United no futebol inglês. Era indomável, tanto em campo quanto fora dele. Os seus dribles e remates sempre resultavam em jogadas exuberantes e golos estrondosos, transformando o Old Trafford num verdadeiro carnaval de alegria. De tão eufóricos, a claque elegeu aquele francês imponente e com cara de poucos amigos como o jogador do século XX da equipa, além de ganhar o apelido de “Rei Éric”. E discorde para ver! Éric Daniel Pierre Cantona foi um dos maiores atacantes e bad boys dos anos 90 e símbolo de como alguém pode ser tão genial e tão mau nas mesmas proporções. Revelado pelo Auxerre, Cantona desde cedo arranjava confusões e deixava claro não ter limites ou aceitar desaforos. Durante sua curta carreira, o francês aprontou de tudo: insultou técnicos, atirou camisa no chão depois de ser substituído, bateu num companheiro de equipa, gozou membros de federação, bateu num policia e pasme se, deu um pontapé num adepto rival (!). Mas, mesmo com um temperamento explosivo, Cantona tinha um lado excêntrico e culto dentro de si que o transformou em actor de cinema, pintor, técnico da selecção francesa de futebol de praia e até palestrante. É hora de relembrar a carreira de um dos grandes craques do futebol mundial.

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Nascido em Marselha, filho de um pintor e uma costureira, Éric Cantona começou a sua carreira no pequeno SO Caillols, da sua cidade natal. O garoto jogou em várias posições, inclusive como guarda redes, até descobrir a sua real função: fazer golos. Cantona demonstrava em campo os seus instintos criativos e muita habilidade, principalmente no controle de bola, graças à força física e altura. Depois de se tornar presença constante na equipa, o jovem conseguiu a sua primeira chance profissional no Auxerre, em 1983, graças ao intenso trabalho de revelação de jovens talentos proposto pelo técnico da equipa na época, Guy Roux. Em 1984, teve de interromper o seu quotidiano futebolístico para prestar o serviço militar. Em 1985, foi emprestado ao Martigues, retornando ao Auxerre em 1986. No clube, disputou 68 jogos e marcou 21 golos, feito que o levou já em 1987 a primeira convocação para a selecção francesa, que procurava se recompor depois de duas eliminações dolorosas nas Copas do Mundo de 1982 e 1986, e que já não tinha mais as estrelas de anos anteriores, incluindo Platini.

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Logo no ano da sua estreia pela selecção, Cantona apresentou o seu “cartão de visitas” ao agredir o Guarda Redes do Auxerre, Bruno Martini, e receber uma punição. No ano seguinte, foi outra vez suspenso (três meses) depois de uma falta dura num jogador do Nantes. Explosivo, mas ao mesmo tempo craque, o jogador ganhava cada vez mais atenção dos adversários e dos media. Em 1988, fez parte do elenco da França campeão europeu sub-21 e, numa  transferência recorde (£2,3 milhões), foi negociado com o Olympique de Marselha, uma realização pessoal do atacante, que poderia jogar no principal clube de sua cidade natal.

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Sem espaço, Cantona foi emprestado e jogou no Bourdeaux e no Montpellier, com destaque para este último, quando, em 1990, ajudou a equipa a conquistar a Taça de França.. No Campeonato Francês, o craque marcou 10 golos e retornou ao Olympique graças ao bom desempenho na temporada.

Em 1991, conquistou o Campeonato Francês pelo Olympique, mas passou grande parte da campanha na reserva. Depois do título, deixou em definitivo o OM para jogar no Nîmes.  Em Dezembro de 1991, depois de não concordar com uma marcação, Cantona jogou a bola contra o  árbitro e recebeu uma suspensão de um mês. Bem, ela seria de apenas um mês não fosse a atitude de Cantona no julgamento, quando gozou todos os membros do juri de “idiotas” e viu a suspensão aumentar para dois meses. O caso fez com que Cantona, cansado de tudo aquilo anunciasse a sua retirada precoce do futebol.

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Em 1992, Cantona após conselhos de amigos retornou ao Futebol. Naquele ano, assinou contrato com o Leeds United, da Inglaterra, após uma rápida passagem pelo Sheffield Wednesday. Os ares ingleses começaram a surtir efeito no futebol de Cantona, que logo na sua temporada de estreia deu show e ajudou o Leeds a conquistar o Campeonato Inglês. O talento do francês aflorava na terra da rainha e despertou o interesse de  Alex Ferguson, técnico do Manchester United. Ferguson precisava urgente de um atacante para sua equipa e perguntou à época se Cantona estava disponível. Depois de telefonemas e conversas, o acordo foi feito por £1,2 milhão. Pobre Leeds: o time acabava de vender ao United o jogador que seria responsável pela ressurreição da equipa de Old Trafford.

O francês foi o grande destaque da equipa ao vencer a   Premier League – novo nome do campeonato do país. Era a primeira conquista desde os tempos  de George Best, Bobby Charlton e companhia,  em 1967.  Mais calmo, mas ainda  capaz de cuspir num adepto rival e ganhar uma multa de mil libras da FA, o craque crescia muito graças ao técnico Ferguson, que seria um dos maiores amigos do francês no futebol.

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Na temporada 1994-1995, Cantona seguia bem no United, levando a crer que conquistaria o tricampeonato seguido do Inglês. Mas o atacante colocou tudo por água abaixo no fatídico dia 25 de janeiro de 1995. Numa partida contra o Crystal Palace, na casa do adversário, Cantona foi expulso depois de acertar um pontapé no guarda redes  Richard Shaw. Enquanto se dirigia para os vestiários, um adepto do Palace provocou o francês, despertou a ira do “diabo vermelho”, que não pensou duas vezes e acertou um golpe de kung fu surreal no peito do torcedor. A cena correu o mundo, todos ficaram atônitos e o francês levou a mais severa punição de sua carreira: oito meses de suspensão, uma multa de 10 mil libras e 120 horas de trabalho comunitário.

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Depois de cumprir suspensão, Cantona voltou e trouxe consigo as glórias para o Manchester United. Com ele em campo, a equipa venceu mais um Campeonato Inglês em 1995-1996, com 14 golos de Cantona.  Cantona recebeu naquele ano o prémio de Melhor Jogador do Ano da Football Writer´s Association (FWA). Em agosto, veio mais uma Supertaça nos 4 a 0 sobre o Newcastle, com um golo de Cantona. Justamente depois de quase ver a carreira ruir, o craque vivia um dos seus melhores momentos como profissional.

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Depois de pendurar as chuteiras, Cantona continuou no mundo do desporto e mostrou um lado até então desconhecido: o de estrela de cinema. O ex-jogador virou actor e fez um papel de destaque no filme “Elizabeth”, além de protagonista do filme “À Procura de Éric”, quando fez o papel dele mesmo. Bad boy, polémico e sem papas na língua, Cantona poderia ter sido muito mais do que foi como jogador naqueles loucos anos 90. Mesmo tendo pouco tempo como profissional, o francês escreveu o seu nome para sempre na história por impor respeito e temor nos adversários com o seu futebol decisivo e genial. Com a camisa do Manchester, fez o adepto sorrir como há mais de duas décadas ele não sorria, conquistando quatro de cinco campeonatos ingleses disputados.

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