1845 – Nasceu o escritor Oliveira Martins

30 de Abril  1845

Autor de uma obra vasta e abrangente nas áreas da historiografia, teoria da história, economia, doutrinação política, antropologia, crítica e teorização literárias, Oliveira Martins emerge como um dos vultos mais fascinantes da Geração de 70 e uma figura ímpar da história da cultura portuguesa.
Oriundo de uma família da pequena burguesia, por morte prematura do pai, oficial da Junta do Crédito Público, vê-se forçado a interromper os seus estudos no liceu e na Academia das Belas-Artes e a empregar-se como praticante de escritório. Terá desde então uma formação autodidacta, documentando-se muito sobre literatura, história, filosofia, política e outras ciências sociais. Teórico do socialismo, economista e prosador notável, defendeu durante a sua vida os ideais da justiça social e da modernização, representados pela doutrina republicana e socialista.
Como primeiro produto dos seus esforços, surgem, em 1867, o romance histórico Febo Moniz e, em 1869, o opúsculo de crítica literária Teófilo Braga e o Cancioneiro e Romanceiro Geral Português. Por essa altura, inicia colaboração jornalística em A Revolução de setembro e no Jornal do Comércio. A partir de 1870, relaciona-se com o grupo do Cenáculo, reunido em casa de Jaime Batalha Reis, tornando-se amigo íntimo de Antero de Quental e Eça de Queirós, com quem partilha a admiração por Proudhon. Pela mesma altura, participa, juntamente com Antero e Batalha Reis, na organização do movimento socialista em Portugal e na redação dos jornais O Pensamento Social e A República. Parte para a Espanha em 1870, como administrador das Minas de Santa Eufémia, em Córdova. Publica em 1872 o ensaio Os Lusíadas – Ensaio sobre Camões e a sua Obra, que será refundido em 1891, onde afirma seguir “os grandes mestres da crítica moderna… Quinet, Taine, Renan, Michelet” e a filosofia da história alemã. Em 1874, muda-se para o Porto, onde assume o cargo de Director da Companhia dos Caminhos de Ferro do Porto (linha Porto-Póvoa). Prossegue a sua actividade jornalística, colaborando com importantes artigos de crítica e de teorização literárias na revista portuense Artes e Letras e na Revista Ocidental, que dirige, juntamente com Antero e Batalha Reis, em 1875.

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Durante as décadas de 70 e 80, no âmbito do projecto ambicioso de criação de uma “Biblioteca das Ciências Sociais” – que o levará a produzir uma vasta bibliografia nos domínios da economia, política, antropologia, psicologia social e história universal -, elabora uma visão filosófica da História de Portugal, que começa por atender à sua inserção ibérica no período de “constituição nacional” (História da Civilização Ibérica, 1879), para concentrar-se em seguida “no período em que o nosso povo representa um papel eminente e original”, que vai da dinastia de Avis às Descobertas (História de Portugal, 1879), e termina no “movimento mais largo de decomposição geral da península”, de meados do século XVII em diante (Portugal Contemporâneo, 1881). As biografias históricas Os Filhos de D. João I (1891), A Vida de Nun’Álvares (1893) e O Príncipe Perfeito (1896) completam esta visão, pondo em cena uma série de personagens exemplares, heróis que teriam incarnado individualmente a ideia da Nação. Em 1885, Oliveira Martins é eleito deputado pelo partido progressista, mas as intrigas dos seus inimigos políticos afastam-no dessas funções, em 1888. À medida que se adensa o seu pessimismo filosófico, eco também das leituras de Eduardo Hartmann, participa nas reuniões-jantantes dos Vencidos da Vida (designação da sua autoria), estreitando a sua amizade com Eça e colaborando na Revista de Portugal por este dirigida. Com a subida ao trono de D. Carlos e na sequência do Ultimato inglês de 1890, é convidado a tomar parte num governo de salvação nacional, mas é novamente vítima de intrigas políticas, demitindo-se meses depois. Doente e abalado psicologicamente, parte para Inglaterra, viagem de que resultarão as crónicas publicadas em A Inglaterra de Hoje (Cartas dum Viajante)(1893). De regresso a Portugal, assume o lugar de vice-presidente da Junta do Crédito Público. Entretanto a doença agrava-se e, depois de uma viagem pela Espanha para reunir documentação para a biografia O Príncipe Perfeito, que deixará incompleta, morre tuberculoso, aos 49 anos.
A tese martiniana de que a vida nacional portuguesa teria acabado com a dinastia de Avis e de que toda a existência subsequente de Portugal não passaria de uma conveniência consentida pelas grandes potências europeias, a sua visão do sebastianismo e do “messianismo ingénito da alma portuguesa” influenciarão directamente a produção literária, repercutindo-se nas estéticas decadentista e saudosista finisseculares. No campo estritamente literário, ressalta também o seu estilo, que oscila, mesmo nas obras científicas, entre o rigor histórico e o sentido poético, pois, como afirmou, o “faro especial da intuição histórica” carece de ser aliado a “um estilo que traduza a animação própria das coisas vivas” (História de Portugal), a fim de suscitar as “moderadas comoções com que é lícito acompanhar o estudo sem prejudicar a lucidez da vista” (Portugal Contemporâneo).

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