1927 – Nasce o Violoncelista e Maestro Mstislav Rostropovich

27 de Março  1927

Considerado o maior violoncelista da 2ª metade do séc. XX, Slava tocou junto ao recém-destruído muro de Berlim em 1989 e em 1991 juntou-se a Ieltsin nas barricadas.

Mstislav Leopoldovich Rostropovich (Slava – glória, em russo) que morreu herói nacional a 27 de Abril num hospital de Moscovo foi um gigante da música: chefe de orquestra polémico mas arrebatador e o maior violoncelista da segunda metade do século XX – como da primeira fora Pablo Casals, professor do pai de Mstislav e, mais tarde, do próprio Mstislav. Com antepassados alemães, franceses, checos, polacos, a família era musical: pai e avô violoncelistas, mãe pianista, tios violoncelista, chefe de orquestra e director de Conservatório, irmã violinista – e a mulher, Galina Vishnevskaya com quem casara em 1955, quatro dias depois de se conhecerem, soprano do Bolshoi.

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Desde o princípio Slava era uma força da natureza: a mãe descobriu tarde que estava grávida, os pais tinham decidido juntos que ela deveria abortar e ele gabava-se de ter ganho essa guerra. Nasceu de dez meses, em Baku, Azerbeijão. Há uma fotografia de Mstislav Rostropovich em bebé a dormir dentro do estojo aberto do violoncelo do pai.

Começou a aprender piano aos quatro anos; aos oito, o pai foi o seu primeiro professor de violoncelo. (Morreu em 1942 mas, com Shostakovich, ficou uma das duas grandes influências que o filho reconhecia). Passagem brilhante pelo Conservatório de Moscovo: o jovem Slava foi aluno de Prokofiev e Shostakovich, ganhou concursos, figurou em circuitos de programação, começava uma carreira.

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Cedo, porém, esta foi marcada por outro veio da natureza de Rostropovich que, juntamente com o génio musical, viria a definir a sua presença no mundo. Em 1948, o governo de Moscovo baniu as obras dos seus dois mestres por “distorções formalistas e tendências antidemocráticas” e demitiu Shostakovich do Conservatório. Solidário, Mstislav demitiu-se também e diria mais tarde que percebera então estar algo profundamente errado no sistema político do país.

Mas em 1953, depois da morte de Estaline, as coisas melhoraram. Prokofiev e Shostakovich foram reabilitados; Rostropovich voltou ao Conservatório, ganhou o Prémio Lenine, e no degelo relativo das relações Leste-Oeste, começou a sua conquista do Ocidente. A estreia no Carnegie Hall recebeu críticas ditirâmbicas que o Kremlin pretendia demonstrarem a superioridade do sistema socialista sobre a decadência do capitalismo americano.

Foi sol de pouca dura. No auge do contentamento oficial e do conforto, Rostropovich e a mulher protestaram contra a invasão da Checoslováquia, emprestaram durante anos a sua “dacha” ao dissidente Alexander Solzhenitsyn, mandaram uma carta aberta ao ‘Pravda’ (que não a publicou) e a jornais do ocidente, indignando-se com o tratamento iníquo do escritor. Logo a seguir foram proibidos de sair do país; depois, autorizados mas proibidos de voltar, e, em 1978, privados da nacionalidade soviética.

Дирижер Национального симфонического оркестра США Мстислав Ростропович

Nomeado director musical da orquestra sinfónica de Washington, passou a dividir-se entre maestro e violoncelista, numa actividade prodigiosa de qualidade e quantidade. O seu apetite por obras contemporâneas que acrescentava ao repertório barroco e romântico era insaciável; Shostakovich, Prokoviev, Glière, Khachaturian, Britten, Foss, Bernstein, Dutilleux, muitos outros, dedicaram-lhe composições que estreou. Vivia intensamente, tinha casas em Paris, Washington e Nova Iorque, bebia como um russo, o casamento resistiu a um ror de namoradas, dava-se com os grandes deste mundo.

Mas nunca perdeu o norte. Em Novembro de 1989 tocou as suites para violoncelo solo de Bach entre os escombros do muro de Berlim, acabado de derrubar. E em Agosto de 1991 deixou Paris e juntou-se a Ieltsin nas barricadas de Moscovo para, se fosse preciso, morrer pela liberdade.

Em 1979, em Estrasburgo, Rostropovic tocou o concerto de Dvorák e, em “encore”, a Sarabanda da V suite de Bach. À saída, debaixo de neve, um amigo, grande como Slava e eslavo de temperamento, atirou-me, iluminado: “Vi Deus!”. Com efeito, se Deus existe, estou em que o vimos nessa noite.

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