Ocorre o 1º caso de “Gripe Espanhola “

8 de Março  1918

A terrível pandemia conhecida como Gripe Espanhola foi um divisor de águas para a humanidade, bipartindo a nossa história em antes e depois do ano de 1918: aqueles que sobreviveram procuraram esquecer as desoladoras cenas que se passaram em todas as partes do Globo Terrestre. Progresso científico e tecnológico deu a vez ao primitivismo dos corpos sendo queimados a céu aberto ou enterrados em covas colectivas. A dimensão da tragédia dificilmente poderá ser descrita com exactidão. As precárias estimativas de óbitos giram entre 20 e mais de 100 milhões de pessoas. Poucas famílias no Mundo chegaram, ou passaram o ano seguinte ilesas.

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Um quarto da população mundial foi contaminada, daí a classificação de Pandemia. Dados mais precisos são encontrados nos registos norte-americanos, onde consta que de uma forma geral 25% da população mundial foi atingida, mas os sectores de grande convívio próximo, como as Forças Armadas, foram os mais afectados. Na marinha 40% do seu efectivo adoeceu, no Exército, 36%.   A taxa de mortalidade da Gripe Espanhola supera a de qualquer outra doença em igual período.

Não demorou muito para que os médicos e enfermeiros pudessem estabelecer um padrão de sintomas que caracterizavam a Gripe: a pele da pessoa assumia uma coloração castanha arroxeada, os pés ficavam pretos, começava a tossir sangue deixando a saliva tingida, uma falta de ar sufocava a vítima em agonia até a morte. De facto, a falta de ar era semelhante ao afogamento, com os pulmões inchados de muco sanguinolento.

Em Fevereiro de 1918 a pequena cidade balneária da Espanha, San Sebatián experimentou a velha Influenza di freddo comum em todos os Invernos, principalmente nos trópicos temperados. Nada que pudesse alarmar o Mundo, três dias de febre, dores e mal-estar. Esta gripe tinha algo de estranho, atacava mais os jovens saudáveis e poupava os velhos e crianças, normalmente as primeiras vítimas. A sua capacidade de infectar era extremamente elevada, logo deixou todos na cidade doentes; em Março atingiu a 15º Cavalaria deixando este grande grupo doente em viagem pela Europa. Os militares espanhóis  chamaram na de “febre dos três dias”, porém a sua rápida disseminação fez com que o resto do Mundo logo a chamasse de Gripe Espanhola. Dois meses depois parecia que todos em  Espanha estavam doentes, cerca de oito milhões de pessoas foram registadas com a gripe, inclusive um terço da população de Madrid e o Rei Afonso XIII. Talvez nem tenha tido origem na própria Espanha, pois quase que simultaneamente apareceram casos por todo o hemisfério norte, contudo, muitos países procuraram negar a existência da gripe, até para não parecerem fracos nesta recta final da 1º Primeira Grande Guerra. A Espanha, como país neutro não se preocupou em esconder o facto e, talvez por isso, para este país convergiu o demérito da origem deste mal.

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Com a chegada do verão no hemisfério norte a onda de gripe dissipou-se tão rapidamente quanto aparecera. O Mundo respirou aliviado por algum tempo. Este período de calmaria duraria pouco, alguns meses depois a gripe estaria de volta, surpreendendo a todos com os seus primeiros passos a serem dados nos lugares que haviam sido poupados pela primeira onda.

Desta forma a Índia, o sudeste Asiático, o Japão, a China, grande parte do Caribe, América Central e América do Sul sofreram nestes momentos iniciais. Daqueles contaminados, 20 por cento assumia uma forma branda da doença, mas dos restantes 80 por cento, a doença era implacável. Destes assumia duas formas diferentes: alguns ficavam imediatamente à beira da morte logo que contraíam o mal, com grandes deficiências respiratórias devido aos pulmões estarem cheios de líquido, tinham delírios devido à febre e logo ficavam inconscientes. Em poucos dias ou mesmo horas estavam mortos. Uma segunda forma, apresentava-se como uma gripe comum, com calafrios, febres e dores musculares, porém sem indicar uma enfermidade maior. Ao chegar ao quarto ou quinto dia, bactérias penetravam nos pulmões infestando-os; assim, o doente desenvolvia uma forte pneumonia que, ou o mataria, ou obrigaria a um prolongado tratamento.

Os Estados Unidos foram alcançados pela segunda onda em Agosto, provavelmente trazida por um grupo de marinheiros que desembarcaram em Boston. No dia 8 de Agosto, oito homens estavam com a gripe, no dia seguinte 58, seguindo a progressão, uma semana depois o primeiro homem foi enterrado no Hospital Municipal de Boston. No dia 8 de Setembro a gripe chegou a Fort Davens, Massachusetts. O acampamento militar “Camp Davens” localizado próximo de Boston, com cerca de 50.000 homens, registou cerca de 100 óbitos por dia durante várias semanas.

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De Camp Davens saiu um dos registos médicos mais claros da Gripe Espanhola: “Duas horas após darem entrada, têm manchas castanho-avermelhadas nas maçãs do rosto e algumas horas mais tarde pode-se começar a ver a cianose estendendo-se por toda face a partir das orelhas, até que se torna difícil distinguir o homem branco do negro. A morte chega em poucas horas e acontece simplesmente como uma falta de ar, até que morrem.” Logo a gripe tomou todo o estado e depois todo o país. Doze mil americanos morreram de gripe no mês de Setembro e todos os acampamentos militares estavam de quarentena. Todas as escolas, teatros, salões de jogos e outros lugares públicos foram fechados numa tentativa de barrar a disseminação da doença. Na cidade da Filadélfia morreram 759 pessoas em um único dia (10 de Outubro).

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No dia 21 de Setembro os cientistas americanos anunciaram as boas novas, o agente causador da doença fora identificado, era o bacilo Pfeiffer, uma bactéria. Isto deu uma sensação de alívio, pois em pouco tempo os pesquisadores poderiam produzir um remédio capaz de combater o mal. Mas isso não aconteceu. Testes realizadas com material contaminado, que fora filtrado ao ponto de não permitir que bactérias passassem, mostrou que mesmo assim a transmissão continuava. O causador não poderia ser o bacilo de Pfeiffer! O inimigo era um vírus, o qual naquela época era impossível de ser isolado e estudado.

As mortes continuaram por todo o Globo até que, como uma nuvem, a Gripe Espanhola desapareceu; dissipando-se sem deixar respostas às inúmeras perguntas dos cientistas.

Somente em 1998 cientistas conseguiram isolar de forma perfeita o vírus e encontrar a solução final. Este terrível vírus viria a ser designado por H1N1.