1965 – Assassinato de Humberto Delgado

13 de Fevereiro 1965

Em 13 de Fevereiro de 1965, a PIDE assassinou o general Humberto Delgado e a sua secretária Arajaryr Campos. O crime ainda hoje está envolto em algum mistério, nomeadamente relativamente ao papel de Salazar e do director da PIDE na decisão da morte. Frederico Delgado Rosa, neto do general, deu à estampa o livro Humberto Delgado – Biografia do General sem Medo, que trouxe nova luz sobre a forma como decorreu realmente o assassinato. Muito há a dizer sobre este crime, que “eliminou” um dos principais adversários do ditador Salazar e do seu regime. Na impossibilidade de dar aqui as várias versões sobre o assassinato bem como de reproduzir toda a complexidade do caso «Delgado», limitar-me-ei aqui a apresentar a cronologia dos factos. Deixo também alguns dados sobre a forma como ocorreu o crime, retirados do libelo acusatório do julgamento do caso Delgado,  realizado três anos após 25 de Abril de 1974.

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A desunião política do general com os correlegionários, no exílio, foi sendo fomentado pela acção dos informadores da PIDE, Mário de Carvalho e Ernesto Bisogno – os arguidos Barbieri Cardoso, Pereira de Carvalho e Rosa Casaco, com o conhecimento de Silva Pais, ordenaram a Ernesto Ramos que, se encontrasse com o General, com o falso nome de “Eduardo de Castro Sousa”». Este convencera o general a dirigir-se a Badajoz, «com o objectivo de efectuar uma reunião política com elementos adversos ao regime de Salazar, entre os quais estaria um oficial do Exército português (um falso coronel).

Em Portugal, terá havido uma reunião, na PIDE, presidida por Silva Pais, com a presença de Barbieri Cardoso, Pereira de Carvalho e Rosa Casaco, onde se terá tomado a decisão de efectuar a detenção de Delgado, que se deveria realizar em território português, após o rapto do general, em Espanha. Mais tarde, Silva Pais disse que a inclusão de Ernesto Lopes Ramos, na brigada, tinha o objectivo de fazer vingar a ideia do rapto e travar Rosa Casaco, do qual se suspeitava ter outras ideias (provavelmente morte do general). Seja como for, Barbieri Cardoso determinou que Rosa Casaco chefiaria a brigada, composta ainda por Casimiro Monteiro, Ernesto Lopes Ramos e Agostinho Tienza, para o encontro, aprazado em Badajoz para 13 de Fevereiro de 1965.

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Sexta-feira, dia 12 de Fevereiro, os elementos da brigada da PIDE rumaram a Espanha, em duas viaturas, atravessando a fronteira, na manhã de 13 de Fevereiro, e dirigiram-se a Badajoz, acompanhados do chefe do posto fronteiriço dessa polícia, António Semedo. Convencido de que iria reunir com os seus correligionários políticos, Delgado encontrou-se, ao meio-dia, na zona da Estação dos Caminhos-de-Ferro de Badajoz, com «Eduardo de Castro Sousa» (o inspector Lopes Ramos), que o levou a ele e a Arajaryr Campos, para um local, onde a pretensa reunião estaria aprazada.

Chegados junto à ribeira de Olivença, em Los Almerines, cerca das 15 horas, Ernesto Lopes Ramos terá parado o seu automóvel, a cerca de dez metros da outra viatura, onde estava António Rosa Casaco, indicado como um coronel que seria pretensamente correlegionário político de Delgado. Na sequência desta falsa indicação, este terá saído do veículo e, ao mesmo tempo que Rosa Casaco se dirigia ao encontro do general, o chefe de brigada Casimiro Monteiro ganhou a dianteira, junto de Delgado, que se terá apercebido de que se tratava de uma armadilha da PIDE. Monteiro terá empunhado a pistola, disparando várias vezes contra Delgado e, ao assistir à cena, Arajaryr Campos terá acorrido em auxílio do general, «sendo então atingida por agressões violentas que lhe causaram a morte por parte dos elementos da brigada».

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Em seguida, Casaco, Ramos, Monteiro e Tienza colocaram os dois cadáveres na mala dos automóveis e deixaram o local, dirigindo-se para Vila Nueva del Fresno (lugar de Los Malos Pasos). Nos arredores dessa povoação, abandonaram os corpos, regando-os com ácido sulfúrico e cal viva, desfigurando os e depositando-os em cima da terra, sem formalidades, cobertos de pedras e ramos de árvores. Depois, os elementos da PIDE dirigiram-se para Aracena, onde se hospedaram, e, na manhã do dia imediato, entraram em Portugal pelo posto espanhol de El Rosal, Huelva.

Na noite de domingo, dia 14 de Fevereiro, Rosa Casaco e Ernesto Ramos deram conhecimento dos acontecimentos, a Álvaro Pereira de Carvalho, e, no dia seguinte, este último e Rosa Casaco relataram o sucedido, ao inspector superior Barbieri Cardoso, que recomendou que se pusesse uma pedra sobre o caso e se mantivesse a negação sobre a interferência da PIDE .

A sentença do caso Delgado foi lida, em Agosto de 1981. O chefe de brigada da PIDE, Casimiro Monteiro, foi condenado à revelia a dezanove anos e oito meses de prisão, por ter sido considerado o autor do crime. O tribunal, presidido pelo juiz presidente coronel Emanuel Coelho, com o coronel Manuel António Dantas e o juiz auditor Gonçalves Pereira, afirmou porém que não se tinha tratado de um crime político, pois os réus tinham actuado no cumprimento das suas funções policiais. Considerou amnistiados e prescritos os crimes de encobrimento de cadáver, falsificação de documentos, abuso de poder e destruição de provas. Silva Pais tinha entretanto morrido, Barbieri Cardoso foi condenado à revelia, por quatro crimes de falsificação, a quatro anos de prisão, e Pereira de Carvalho sentenciado a vinte e oito meses. Rosa Casaco também foi sentenciado, à revelia, por seis crimes de falsificação e dois crimes de furto de documentos, em oito anos e nove meses de prisão e Ernesto Lopes Ramos, bem como Tienza, por um crime de uso de identidade falsa, sendo respectivamente, condenados a vinte e dois meses e a catorze meses de prisão.

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Manifestações de Apoio ao General Humberto Delgado 1958