1844 – “Eurico o Presbítero “ – Alexandre Herculano

28 de Janeiro 1844

Com a publicação de Eurico, o Presbítero, em 1844, Alexandre Herculano (1810-1877) inaugura o romance histórico em Portugal, ganhando a primazia a Almeida Garrett, cujo romance O Arco de Sant’Ana será editado dois anos mais tarde. Exilado em França, onde estuda a obra dos historiadores Thiers e Guizot, que o influenciará fortemente na escrupulosa metodologia de fidelidade ao documento e na escola do rigor analítico positivo, bem como em Inglaterra, onde, como leitor, convive com os romances de Walter Scott, Alexandre Herculano, regressado a Portugal, soube harmonizar com mestria, tanto em Eurico, o Presbítero quanto em O Bobo (1843, mas publicado em 1878), como, ainda, em O Monge de Cister (1848) e nos dois volumes d’As Lendas e Narrativas(“Alcaide de Santarém”, “Arras por Foro de Espanha”, “O Castelo de Faria”, “A Abóbada”, “A Dama Pé-de-Cabra”, “O Bispo Negro”, “A Morte do Lidador”, “O Pároco de Aldeia” e, narrando os seus tempos de emigrante político em 1831, “De Jersey a Granville”) o ditame minucioso do método histórico com a urdidura ficcional do romance.

Abordando a questão do celibato, Eurico, o Presbítero faz par temático com O Monge de Cister, tendo Alexandre Herculano dado às duas narrativas o título geral de “Monasticon”. Romance heróico, Eurico, o Presbítero analisa a contradição ética entre a irrupção sentimental da carne e a obediência à disciplina celibatária da Igreja. “Crónica-poema” lhe chamou o autor: “poema” devido ao seu estilo lírico-romântico; “crónica” porque narrativa da invasão da Península Ibérica pelos mouros em 711, separando os dois protagonistas do romance, Eurico e Hermengarda, filha de Favila e irmã de Pelágio. Repudiado pelo pai de Hermengarda devido a preconceitos de distinção social, Eurico, não logrando casar-se com a sua amada, abandona a vida social e professa ordens religiosas em Carteia. Hermengarda, por sua vez, entra no mosteiro da Virgem Dolorosa. De noite, um misterioso Cavaleiro Negro fere as hostes dos invasores árabes, vencendo-as. Por todo o lado, se fala nos prodígios de combate do Cavaleiro Negro. Hermengarda é raptada do mosteiro pelos invasores e é levada à presença do Amir, para que se torne sua amante. Eurico, o presbítero de Carteia, é o Cavaleiro Negro, salva Hermengarda no derradeiro instante e foge com Hermengarda desmaiada. Quando, finalmente, Eurico e Hermengarda se encontram sós e em segurança, ambos constatam a impossibilidade trágica da sua união – Eurico é sacerdote. Hermengarda enlouquece e Eurico, buscando a morte, desaparece pelejando entre as tropas mouras, trajando como Cavaleiro Negro.

O desenho da personagem de Eurico obedece à personalidade austera, independente, solitária e profundamente religiosa (sem obediência a um credo cristalizado) de Alexandre Herculano, historiador e cidadão divorciado das intrigas políticas do constitucionalismo liberal. Eurico evidencia-se, assim, como o retrato ético e cívico do seu autor, batalhando individualmente pelo progresso da pátria, exilado como Eurico, íntegro como Eurico, generoso, oferecendo a vida no cerco liberal do Porto como Eurico, disfarçado de Cavaleiro Negro, a oferecia nas pelejas contra o invasor; devotado ao silêncio da decifração de documentos medievais, como Eurico na solidão dos claustros. Eurico combate pela liberdade de Espanha, sofrendo injustos desentendimentos com a família de Hermengarda; Alexandre Herculano luta pela liberdade de Portugal contra o absolutismo régio. Dificilmente se encontrará outro romance em Portugal onde a essência da vida do autor e a da vida da personagem principal, sendo diferentes e existindo em épocas históricas diferentes, se plasmem harmonicamente numa vigorosa unidade estética.

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alexandre herculano