1985 – Morte de José Maria Pedroto

7 de Janeiro 1985

José Maria Pedroto é reconhecidamente um dos maiores vultos do futebol português, quer pela excelente carreira que protagonizou como futebolista na década de 50 do século passado, quer, em especial, pela carreira que realizou como técnico, sendo que é para muitos considerado, ainda hoje, como o melhor treinador de sempre do futebol português.
Foi protagonista em vários clubes nacionais, especialmente nortenhos, assumindo um relevante papel na afirmação nacional de equipas como o Varzim SC, o Boavista FC, o Vitoria de Setúbal, ou o Vitoria de Guimarães. Mas seria no FC Porto, especialmente ao lado de Jorge Nuno Pinto da Costa, que José Maria Pedroto empreenderia a maior transformação, levando a principal formação da cidade invicta a conquistar os títulos nacionais que sucessivamente teimavam em fugir para os clubes da capital, ou projectando e implantando a organização interna que ainda hoje prevalece no FC Porto.
José Maria Carvalho Pedroto, nasceu no dia 21 de Outubro de 1928 na freguesia de Almacave, no concelho de Lamego.
Filho de um militar, Capitão do Exercito português, Pedroto deixou aos 7 anos de idade o interior de Portugal e rumou ao Porto, para onde seu pai foi colocado para prestar serviço num quartel desta cidade. Após o falecimento do progenitor o jovem José Maria foi internado no Colégio Araújo Lima, ali bem próximo do Campo da Constituição na cidade invicta, onde começou a nascer o sonho de tornar-se jogador de futebol.
Começou a dar os primeiros pontapés na bola naquele mítico recinto portista, pela mão do austríaco Gutkas, o responsável das camadas jovens do FC Porto. Pedroto tinha como ídolo de infância o futebolista Pinga da equipa principal do FC Porto.
Com 10 anos de idade foi viver com a família para a zona de Pedras Rubras, onde, juntamente com um grupo de amigos, fundou o FC Pedras Rubras, clube onde exerceu o cargo de Presidente e foi naturalmente o capitão da equipa de futebol.
Seria no Leixões SC, a partir de 1946, que começaria a praticar futebol, digamos que mais a sério, na equipa de juniores leixonense, já com 18 anos de idade bem vividos. Aí começou a deslumbrar com o seu potencial futebolístico todos aqueles que assistiam as partidas da jovem equipa da cidade de Matosinhos. Actuava preferencialmente a meio campo, numa posição que naquela época se apelidava de interior.

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O CF Belenenses e o FC Porto lançaram-se numa frenética corrida para a sua aquisição. Ganhou o CF Belenenses, que ofereceu a Pedroto 25.000 escudos como prémio de assinatura e um emprego no Ministério da Marinha.
Mesmo antes de assinar pelo clube da Cruz de Cristo, o FC Porto ainda enviou um emissário que lhe colocou nas mãos um cheque no valor de 80.000 escudos, uma astronómica quantia naquela época, como prémio para rubricar contrato com o clube da cidade do Porto.

Porém, Pedroto não voltou com a palavra atrás cumprindo o acordo verbal que tinha assumido com o CF Belenenses e assim rumou ao clube da capital. Alem do FC Porto, José Maria Pedroto recusou ainda propostas de clubes como o SL Benfica, Académica de Coimbra, Vitoria de Setúbal e Vitoria de Guimarães.

José Maria Pedroto

No Campo das Salésias, casa do CF Belenenses, Pedroto deu verdadeiros recitais de bem jogar futebol. A mestria do seu futebol geométrico que parecia balizado a régua e esquadro eram apreciados e causavam espanto a todos os admiradores da modalidade. Fernando Vaz, treinador do CF Belenenses, colocou-o a jogar médio centro pela primeira vez e nessa posição se tornou notável.
.Como jogador era bastante rápido e simples na execução. No passe e na desmarcação dos companheiros de equipa era um verdadeiro mestre. De compleição física franzina era todavia dotado de um enorme talento e técnica acima da média. Mas a predominância do seu futebol, aquilo que o distinguia dos demais, advinha sobretudo da sua inteligência e na forma invulgar como lia o jogo, características que mais tarde o fariam único como treinador.

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Em 1952/53, Pedroto transferiu-se finalmente para o FC Porto depois de muita insistência dos responsáveis azuis e brancos. Alias, o jovem jogador – que auferia um bom salário no CF Belenenses ao que lhe juntava aquilo que arrecadava como escriturário na empresa Hidroeléctrica do Zêzere – fez um pedido megalómana aos emissários do FC Porto, dado que a bem da verdade não tinha intenção alguma de abandonar o clube da Cruz de Cristo. Pedroto pediu ao FC Porto 150.000 escudos!
.O FC Porto aceitou, protagonizando assim a transferência mais cara do futebol português até então. Foram no total 500.000 escudos a maquia despendida pelo FC Porto na aquisição de Pedroto, arrecadando o CF Belenenses o montante de 335.000 escudos, pela transferência, verba essa que seria usada pelo clube da cidade de Lisboa na construção do Estádio do Restelo.

Pedroto colocou um ponto final na carreira de futebolista no final da época de 1959/60 abraçando imediatamente a função de treinador. Foi o primeiro treinador português a fazer um curso de treinador ministrado pela afamada Federação Francesa de Futebol, com apenas 31 anos de idade, apresentando uma tese final com aquilo que considerava ser os 17 princípios de jogo, obtendo na altura uma brilhante classificação. Entre 87 inscritos, apenas 5 foram aprovados, sendo José Maria Pedroto o único estrangeiro a obter o diploma.

Assumiu prontamente o cargo de treinador nas camadas jovens do FC Porto e também na Selecção Nacional da categoria de juniores, juntamente com David Sequerra, onde conquistaria o Torneio Internacional da Uefa naquela categoria, numa prova disputada pelas 13 melhores selecções do velho continente. Conquistou assim com a equipa de Portugal, onde pontificavam jogadores como Simões, Peres, Carriço e Serafim, o primeiro título europeu nas camadas jovens, recebendo Pedroto de prémio pela conquista a quantia de 2.250 escudos.

A qualidade do trabalho que realizava e a bagagem de experiência que acumulou abriu-lhe as portas do regresso ao FC Porto em 1966, concretizando assim o seu sonho de tornar-se treinador principal da equipa azul e branca.
Permaneceu no FC Porto – nesta que seria a sua primeira passagem como técnico – três épocas consecutivas, onde nunca conquistou o Campeonato Nacional da 1ª Divisão, mas venceu a Taça de Portugal na temporada de 1967/68, o seu primeiro titulo como treinador, derrotando na final da competição o Vitoria de Setúbal por 2-1.

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Após passagens vitoriosas pelo V. de Setúbal e Boavista ,assina contrato com o FC Porto, após uma investida directa de Pinto da Costa, que estava devidamente autorizado pelo Presidente Américo Sá para contratar a qualquer custo o treinador português. José Maria Pedroto apenas colocou uma condição que se verificou: Que Pinto da Costa foi o Chefe de Departamento de Futebol Profissional. Começava assim uma dupla que marcou e marcará inquestionavelmente para sempre uma época no futebol português.

Ganhou 2 campeonatos Nacionais mas problemas internos voltaram a afastar José Maria Pedroto do clube do seu coração. Foi a partir da época de 1982/83 que a dupla José Maria Pedroto e Pinto da Costa se reencontraram e começaram a lançar os alicerces do FC Porto que na década de 80 chegou a conquistar os títulos de Campeão Europeu e do Mundo.
Este regressou ficou marcado todavia pela grave doença que apoquentou o técnico. Conquistou ainda no activo a Taça de Portugal na temporada de 1983/84 derrotando na final da competição a celebre equipa do Rio Ave FC.

José Maria Carvalho Pedroto acabou por falecer na manha do dia 8 de Janeiro do ano de 1985, com 56 anos de idade, sucumbido à doença ( cancro) que o corroía imparavelmente. Durante a madrugada do dia do seu falecimento, já visivelmente debilitado, tentou satisfazer os seus últimos desejos, bebendo whisky por uma colher e tentando fumar o último cigarro.
Terminou assim a vida de homem invulgar que seguramente marcou uma época e um estilo no futebol português. Não viu, em vida, cumprir-se o seu maior sonho, ver o FC Porto Campeão da Europa e do Mundo.

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