“O Desprezo“ – Alberto Moravia

11 de Outubro 1954

Nesta obra, Alberto Moravia esmera-se em explorar minuciosamente o tema da deterioração das relações conjugais, ao criar simultaneamente uma intertextualidade com o dilema emocional e afectivo da personagem  Ulisses de Homero.

Com um discurso narrativo fortemente marcado pelo pensamento analítico, a trama de “O Desprezo” é desenvolvida de forma lenta, retardada por longos momentos de pausa e reflexão, descrevendo o processo gradativo de transformação de um sentimento de amor fortemente presente num casal, em desamor ou desprezo, ao sublinhar todas as cambiantes e nuances comportamentais que traduzem a metamorfose daquilo a que se pode  chamar de admiração  incondicional pelo cônjuge em constante apreciação crítica, obrigando a uma cada vez maior distância emocional, alimentada pelo distanciamento do casal e pelos longos silêncios que se estabelecem  entre ambos e se instalam no quotidiano e envenenam lentamente a relação. O processo torna-se irreversível pelo acumular de situações incómodas e mal entendidos, já que a verdadeira causa do problema nunca é abordada pelo casal, limitando-se ambos a fazer alusões, imbuídas de ácida ironia e corrosivo sarcasmo.

Os romances de Alberto Moravia são potenciadores da volúpia de uma leitura lenta, que obriga à introspecção e, ao mesmo tempo, a que o leitor se reporte constantemente ao próprio quotidiano ou à realidade circundante.Moravia é um Autor que parte da realidade para a ficção.

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